Dê-me um sinal
Eu estava em desespero, não conseguia distinguir se aquele olhar estaria em minha direção, ou se eu estaria imaginando coisas pelo fato de estar apaixonado. Nos últimos dois meses, eu fui protagonista desta situação por muitas vezes.
Os olhos amendoados me olhavam, eram tão brilhantes e iluminados, que muitas vezes eu desviara a direção do meu olhar, por não saber como reagir a tanta beleza. Estava ali, parada, parecendo um anjo, pelo menos na minha cabeça, era um anjo. Muitas vezes eu me via sem ar e até forçava os pés no chão, para não correr o risco de sair levitando ou outra coisa do gênero, seria extremamente perceptível.
Ela veio em minha direção, eu pisquei os olhos duas vezes para saber se estava realmente acordado, infelizmente eu estava. Aproximou-se e perguntou se o lugar ao meu lado no banco estaria ocupado, eu meio sem jeito, balancei a cabeça negativamente e com um tom de voz suave, disse que não.
Sentou-se, olhou para frente e enrijeceu, na minha “cabeça”, aquilo era um péssimo sinal, mas para o meu coração, o fato de ter se acomodado ao meu lado, era algo positivo.
À medida que o tempo passava, eu tentara de alguma forma chamar a sua atenção, por muitas vezes tentei encostar minhas pernas na dela ou sentir o ar suave de seus braços nos meus, o banco em que estávamos já não era “solitário”, agora, onze pessoas estavam ali além de nós dois.
Vinte e sete minutos, nenhuma palavra, nenhum olhar, nada que pudesse ao menos dar-me esperanças. Não fiquei angustiado, sequer entristeci, estava acostumado com essa falta de comunicação e a sua rispidez.
Trinta e sete minutos, eu não estava mais ali, pelo menos não em espírito, meu corpo era apenas uma massa inerte amontoada em um banco, sem sinal de vida ativa. O meu pensamento estava em desespero, eu queria um sinal, eu queria um olhar, eu queria uma palavra...
Quarenta e oito minutos, eu não consigo entender até agora de onde vieram forças para aquela massa inerte olhar para o lado e perguntar as horas, mas fiz isso, perguntei e não me arrependo, ela virou – se lentamente e respondeu. Nem reparei em sua resposta, até por que, eu estava contando as horas desde o momento que sentei naquele banco.
Naquele único momento, eu só tinha “olhos”, ou melhor, eu só tinha “ouvidos” para aquele som perfeito, sua voz era linda, eu já havia reparado outras vezes, e como havia... Mas nunca tão minuciosamente como naqueles três segundos de resposta sobre o horário, a resposta foi simples e curta, mas fiquei tão ou mais alvoroçado do que quando ela perguntou – me sobre o lugar vazio no banco.
Por um breve e insensato momento, fiquei a imaginar se um dia eu teria aquela voz voltada para mim, se ouviria canções e declarações todos os dias que quisesse, se um dia ouviria sermões e ralhos que mais pareceriam uma bela canção do que qualquer outra coisa, se um dia eu seria “inspiração” para aquela voz, a voz que eu sonhara todos os dias há mais de dois meses...
Eu estava satisfeito, ela falou comigo, ela reparou em mim, pelo menos eu alimentava isso, agora eu podia alimentar por mais dois meses ou dois anos, tanto faz, ou até ela reparar outra vez, seria uma solução para exterminar a aflição, o sufoco e a dor que revestiam o meu coração por não ser, literalmente, correspondido àquele sentimento.
Uma hora e quinze minutos, acordei espantado com o tom grave da voz do padre, ele estava dando a benção final a todos aqueles cristãos da missa de domingo, olhei ao redor e vi que tudo não passara de um sonho, eu havia dormido durante toda à missa. Ninguém havia reparado nos meus roncos, ou nos sons estranhos que eu emitia quando dormia ou cochilava? Ninguém havia me esbarrado ou empurrado em uma tentativa de me acordar? Será que ficaram compadecidos do meu rosto ao sonhar emitindo emoção e esperança?
Levantei-me inconformado, fiz o sinal da cruz e caminhei em direção à porta daquela igreja, olhei ao redor, ela não estava lá, não conseguia pensar em outra coisa se não naquele sonho... Era isso então, tudo passara de um sonho, um sonho de uma hora e exatos quinze minutos, agora não havia sentido, eu continuaria na mesma, continuaria sonhando, continuaria imaginando, continuaria rezando para que um dia aquilo pudesse vim a ser real.
Meus passos foram lentos até a saída da igreja, estava a flutuar, até queria que estivesse mesmo, não me daria ao trabalho de andar, eu estava tonto e infeliz, só me restava ir para casa como em todos os outros domingos, como todos os outros dias em que sonhei com o improvável, para mim já era improvável, até mais que isso...
Eu queria um sorriso, um abraço, uma voz a cantar para mim infinitamente, mas isso tudo, de uma única pessoa que sequer falava comigo, vou ficar em sonhos, em pensamentos, em imagens distorcidas do que não aconteceu... Dê – me um sinal para que eu possa tornar essa fantasia uma realidade e repousar o meu coração, ele precisa desse repouso há mais de dois meses.
Bruce Alex Teixeira Larrat.
Gostei mt, Bruce.
ResponderExcluirParabéns, love. Estás cada dia melhor'
=*